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Opiniāo: Não confunda relacionamento abusivo com amor

Luciana Kotaka



Se existe um tema complexo e que nunca deixará de ser discutido é sobre os relacionamentos. Desde que nascemos estamos nos exercitando, aprendendo a interagir com o outro, e apesar desse processo ser aparentemente tranquilo, será através deles que iremos nos deparar com muitos desafios, e alcançaremos as nossas maiores aprendizagens.


Durante a semana, chegaram várias situações desafiadoras para eu atender na clínica que envolvem a desvalorização do parceiro, e sabemos o quanto isso impacta negativamente no relacionamento, sendo um dos motivos que levam ao fim do casamento.


Se buscarmos em nossa memória, logo iremos nos lembrar de um encontro entre amigos em que alguém fez uma brincadeirinha ou comentário inocente apontando a falha do parceiro na frente de todo o grupo. Lembrou? Com o tempo muitos se acostumam com um relacionamento tóxico, aguentam a desvalorização do outro, a falta de respeito e pouco a pouco assistem tudo ir por água abaixo.


Não há como prosseguir em frente quando não nos sentirmos seguros do lado da pessoa que escolhemos nos relacionar, concordam? Escolhemos alguém a quem confiamos os nossos sonhos, segredos, vulnerabilidades, precisamos sentir que temos o apoio, o carinho e o cuidado da pessoa amada. E quando fica claro que estamos navegando em mar aberto sem as condições mínimas de segurança, o amor esvai, não há muitas chances de se resgate. Mas sinto que há um aspecto bem importante a ser avaliado que é essa parte sua que precisa desvalidar o outro para se sentir bem, um aspecto da personalidade que sente prazer com a dor do companheiro, como se desta forma se tornasse superior. É esse ponto que necessita de atenção, pois por trás dessa máscara de superioridade há uma pessoa que foi machucada e muito humilhada, o que demanda um trabalho terapêutico a fim de se buscar a cura.


Normalmente mesmo não sendo expresso em palavras, a pessoa que apresenta esse comportamento também faz isso consigo mesma, mesmo que mentalmente, não enxerga suas qualidades, não reconhece o próprio potencial, se acha um nada. A baixa autoestima governa a sua vida, se sente incapaz até de dar amor para o parceiro, então faz o oposto, pisa no outro para que desta forma sinta que tem algum controle sobre alguém, e quando consegue, se sente vitorioso.


O poder que sente ao ter esse comportamento o faz reviver a mesma experiência de quando foi humilhado, e ao reeditar a sua história fazendo com que o parceiro se sinta humilhado, é como se pudesse aliviar a dor que carrega dentro de si, e nesse momento se invertem os papéis, o que lhe dá muito prazer.


O círculo vicioso se instala e muitas vezes se comporta dessa forma com amigos, colegas de trabalho e pessoas aleatórias das quais estabelece algum contato. Ao reconhecer em si mesmo esse comportamento a pessoa já dá um grande passo em direção à cura, mas isso somente ocorrerá de fato se essa constatação lhe causar desconforto com o próprio comportamento, e assim buscar ajuda de um profissional habilitado.


Mexer com as dores do passado pode te levar a navegar em águas turbulentas, mas você está aqui para aprender e se aperfeiçoar, então quando perceber que seus relacionamentos não estão fluindo, é preciso voltar a atenção para dentro de si mesmo e verificar os detalhes dessa trajetória. Em qualquer um dos lados que você estiver nessa história, seja do que humilha ou de quem se sente humilhado, a direção é a mesma, buscar um caminho leve à cura.


Fonte: Estadāo


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