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Opiniāo: Casais no divā: as crises e descobertas da pandemia

Por Carol Ito

O distanciamento social e as dificuldades impostas pela pandemia trouxeram desafios inéditos para a vida dos casais, que se viram obrigados a fazer um balanço da relação e a reforçar ou até romper laços. Entre os casados, a segunda opção foi a mais procurada: ao longo de 2020, o número de divórcios aumentou 15% em relação ao ano anterior, de acordo com levantamento do Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal, entidade que coordena os cartórios do país.


Batemos um papo com os terapeutas de casais Ana Canosa, Cristina Werner e Alessandro Poveda para entender como os casais vêm encarando um período de tantas incertezas.


Crise do cuidado

“No início da quarentena, era comum ouvir relatos de casais que ficaram afastados porque um pegou Covid e o outro não. Naquele momento, eles analisaram o quanto podiam contar com a parceria, de fato, o que gerou dois movimentos: o primeiro, que chamei de ‘Covid concordantes’, representa os que foram pró-conciliação. O segundo, dos ‘Covid discordantes’, que resolveram se separar ou entraram em conflito”, conta Cristina Werner, psicóloga, terapeuta sexual e de casais e membro da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana (SBRASH).


Com o passar dos meses, Cristina conta que os grupos de “Covid concordantes” e “Covid discordantes” passaram a ser divididos entre os que concordam ou não com a gravidade da pandemia. “Começou a haver uma divisão entre crença e negacionismo entre os casais: enquanto um seguia as recomendações, o outro acreditava em tratamento precoce, no ‘kit mágico’ contra o vírus, que diz que tomar cloroquina e outros medicamentos [que não têm eficácia comprovada] era suficiente”, explica ela. “Essa foi a tônica da pandemia: não se sentir tão cuidado ou cuidada quanto gostaria.”


A psicóloga e educadora sexual Ana Canosa também observou esse tipo de conflito em seu consultório: “Existe uma forte divergência na maneira de encarar a pandemia e mudar hábitos para garantir a saúde do casal, da família e da comunidade”, diz. "Uma mulher que atendo resolveu se separar do parceiro porque a maneira como ele se recusou a seguir qualquer orientação de cuidado e distanciamento social, como uso de máscara e álcool gel, a deixou extremamente entristecida. O conflito já existia no convívio do casal, a pandemia só ajudou a escancará-lo.”


O psicanalista Alessandro Poveda destaca que o período serviu apenas para potencializar conflitos que já existiam, principalmente, ligados à comunicação do casal: “É uma crise que aparece de forma subjetiva, como nas falas: ‘ele não me entende’, ‘eu falo uma coisa, ela entende outra’, 'ela não sabe se expressar, não sabe o que quer'. A pandemia fez as pessoas pensarem se valia a pena estar em uma relação. Têm casais que estavam juntos e só se suportavam porque não viviam muito tempo em casa”, explica ele.


Pouco glamour

O consenso é de que a falta de privacidade e da vivência no mundo lá fora abalou – e muito – as relações. “A falta de espaço físico para manter uma certa privacidade, principalmente para quem tem filhos pequenos, que demandam atenção constante, foi um grande problema”, diz Ana. “Além disso, o convívio excessivo com o parceiro foi agravado pela necessidade de alimentar-se com a energia da vida fora de casa. Há pessoas que ficam muito bem em casa, trabalhando ao lado do parceiro, outras se entristecem, pois carecem da falta de convívio externo, algo que o contato virtual não substitui.”


Com todo mundo dentro de casa, as tarefas domésticas também se multiplicaram, sobrecarregando principalmente as mulheres, no caso de relações heterossexuais. “A mulher está mais exausta, mais sobrecarregada, principalmente se tiver filhos. No confinamento, ela tem que falar e até brigar para o homem fazer uma tarefa. A reclamação do homem é de quem não percebeu ainda que aquelas demandas sempre existiram, sempre estiveram lá”, pontua Alessandro.


O aumento da carga de trabalho doméstico é diretamente proporcional à falta de tesão: “Se tem uma coisa que concorre contra a vida sexual é o cansaço. Especialmente para nós, mulheres, porque temos muito mais trabalho imposto e naturalizado pela sociedade”, explica Cristina. Outro problema é a falta de um espaço reservado para o sexo: “Quais são as funções do quarto? Dormir e transar. Agora, passou a ser também lugar de comer, de criança brincar, de trabalhar com o notebook em cima do colo, por exemplo. O quarto perdeu a sua aura mágica.”


Ana pontua algumas diferenças ligadas ao tempo de relacionamento: “Entre os casais recentes, teve muita gente que se descobriu sexualmente durante a pandemia, casais entraram numa vibe de se desenvolver mais na área da sexualidade. Tem muito da disposição dos dois em querer investir nisso”, conta. Para casais que estão há mais tempo juntos, a rotina sem muitas novidades contribuiu para minar a libido: “A convivência excessiva tira um pouco o glamour da história, você não sai de casa, não se arruma, não vê outras pessoas. Tudo é muito esperado, muito conhecido”, explica ela.


“Faltam descargas de tensão, como sair com os amigos, sentir falta um do outro. Muitas vezes, o sexo que já era escasso começa a se tornar uma tensão. Sem contar os problemas com as finanças e o desemprego, que afetam muito as relações”, acrescenta Alessandro.


Segue o baile

Se a vontade de investir na relação sobreviveu aos doze meses pandêmicos, o caminho é seguir fazendo ajustes e encontrar maneiras de superar a crise. “Alguns casais descobriram que podem funcionar como um verdadeiro clã, fortalecendo o sentimento amoroso e de gratidão uns com os outros. “Eu sinto que estar comprometido na relação e no projeto comum, percebendo a si mesmo e ao outro, eleva a satisfação com a parceria. Sendo assim, precisamos aprender que o amor só funciona quando é convertido em ação”, avalia Ana.


“O que eu proponho para os casais é trabalhar com uma janela de tolerância. Por exemplo: você não precisa lavar a louça na hora que eu peço, mas tem um deadline para não juntar com a louça da próxima refeição”, diz Cristina, que também fala da importância do acolhimento: “É preciso trabalhar com a tolerância interna e externa, aceitar os próprios processos e ter mais compreensão com o cônjuge, que também tem suas carências”.


Fonte: Revista TRIP


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